Um anjo entre telas
Há três anos, quando aquele homem apareceu em minha porta, eu aceitei sua proposta sem pestanejar. Era o que eu fazia rotineiramente. As pessoas pagavam. Eu recebia o dinheiro. Alguém era vigiado. Segredos eram desvendados. Simples assim. O esforço envolvido era grande, mas a remuneração também era. E eu era o melhor em conhecer a vida das pessoas - e reconhecer a verdade nelas.
Eu trabalhava para o lado bom e para o lado ruim - se é que havia algum lado. Auxiliava a desvendar crimes, mesmo não sendo a pessoa mais amada da justiça. Auxiliava a cometer outros tantos crimes. O rumo era determinado pelas vantagens obtidas.
Jack, como eu o apelidei, chegou naquela tarde em meu apartamento dizendo que meus serviços foram recomendados por conhecidos. Eu ouvi atentamente. Ele era frio e confiante. Não era um caso passional. Jack não se deixava abalar. Era cruel. Imaginei logo que envolvia a fortuna da vítima, mas não era da minha conta a não ser que ele trouxesse à tona. Eu era pago para fazer, não para questionar.
Achamos o local apropriado, instalamos meus equipamentos. A vítima chegou uma semana depois. Chegou desacordada, parecendo que dormia um belo sono. Contudo, manchas roxas demonstravam que sua chegada não fora sem violência física. Eu analisava tudo. Eu precisava analisar tudo.
Ele queria que eu identificasse o que ela sabia sobre o desaparecimento do suposto amante. Dário, o nome dele. Michela, o nome dela. Muito embora Jack parecesse se importar apenas com ele, eu sabia que havia algo em seu passado que envolvia a moça.
- Eu não sei onde ele está!
Ela falou tremendo quando a interrogadora entrou no quarto simples em que ela fora alocada. A interrogadora faria as perguntas que eu lhe passava. Eu assistiria por uma das câmeras de alta resolução instaladas. Não interagia diretamente com as vítimas. Meu nome nunca era envolvido. Minha imagem permanecia oculta. Precisava me garantir quanto ao futuro. Não sabia quanto ao processo de captura, nem quanto à segurança do cativeiro, embora soubesse sua localização, o que já era suficiente para me colocar em problemas.
- De quem estamos falando?
Eu já estava preparado. Algumas vítimas se entregavam negando os fatos antes mesmo do questionamento. Michela não estava fora dos padrões. Todavia, não estava completamente convicto da situação. Havia algo em seus olhos que me fizera questionar minha própria padronagem. Os olhos de Michela brilhavam como eu nunca havia visto. E foi esse brilho, de apenas alguns segundos, que a tornou tão interessante aos meus olhos
Dário, aparentemente, era importante demais para Jack, que possuía dinheiro suficiente para manter meus serviços. Eu nunca questionei mais do que sua capacidade de me pagar e, durante três anos, eu a vigiei. Eu via Michela chorando, gritando, dormindo. Eu a via no chão do aposento. Eu a via sentado debaixo do chuveiro. Eu a via deitada na cama. Em todos eles, ela sempre estava cantando, como se essa fosse sua forma de rezar.
Inicialmente, eu lhe assistia nos dias de interrogatório e em horas aleatórias, conforme meus planejamentos e minhas intuições. Conforme o tempo passou, interessei-me nas confissões que ela fazia antes de dormir. E eu a via mais do que via a qualquer um. Eu passei a enxergar todas as tonalidades daquela mulher capturada pelas minhas telas. Ela era a mulher que se culpava por ter se afastado da família, seguindo Dário para onde quer que fosse. Ela era a menina de oito anos que roubara boneca da vizinha. Ela era a adolescente que invejava a amiga. Ela a era a pessoa que achava que todos os seus pecados haviam-na levado até ali.
Eu chegara ao ponto de velar por seu sono. Eu tocava na tela e sentia como se estivesse tocando em sua face. Eu podia sentir sua respiração, sua temperatura. Nada mais fazia sentido. Eu trabalhava em outros casos e ligava a tela dela tão logo conseguisse. Eu precisava saber que ela ainda estava lá. A ideia de que ela não estava fisicamente comigo não existia. Ela estava ali, ao meu lado, atrás daquela máquina. E eu sabia que estava ficando tão louco quanto ela, com a diferença única de que eu mesmo me enclausurava. Eu me assustava ao perceber que, talvez, tivesse me apaixonado por ela, porque isso significaria me envolver com o objeto do meu trabalho. E, por mais que eu quisesse que ela me conhecesse, era arriscado demais.
Um dia, jantando, eu ouvi-a.
- Eu sei que você está aí. Preciso falar com você. Preciso me confessar com Deus.
Lá estava ela, deitada no chão de concreto. Os cabelos espalhavam-se em torno de sua cabeça, como se nadasse pelas águas calmas de um lago. Os olhos estavam fechados a princípio. Mas tão logo mencionou Deus, ela os abriu, e olhou para o teto.
- Eu não sei de onde você me escuta, mas eu sei que me escuta. Eu preciso falar com alguém, antes que seja muito tarde.
Eu não perdi tempo. Corri para o cativeiro sem saber o que me esperava. Pedi permissão aos dois seguranças, afirmando que algo fora revelado. Eles não pestanejaram; sabiam quem eu era.
Quando entrei, lá estava ela, deitada no chão de olhos fechados. Ela os abriu somente quando eu passei pela porta e sorriu.
- Você veio.
Cruzei os braços, tentando manter o profissionalismo.
- O que você tem a revelar?
- Que os anjos finalmente vão me perdoar.
Ela fechou os olhos novamente, sorriu uma última vez e se sentou, cruzando as pernas.
- Sente-se à minha frente, por favor. - ela pediu, e eu obedeci.
Seus olhos castanhos se arregalaram, absorvendo-me em sua análise de mim. Ela tocou em meu rosto e abriu a boca, como se fosse falar algo. Porém, logo fechou-a, levando a mão aos lábios.
- Eu queria saber como você era.
- Como você soube que havia alguém assistindo?
- A mulher que me visitava parou de vir. E Andrei jamais me deixaria aqui sem alguém para vigiar.
- Jack. Eu prefiro chamá-lo de Jack.
- Jack... - ela pronunciou, como se fosse uma palavra estranha.
- Por que você me chamou?
- Porque eu senti que era a hora. As pessoas sabem quando vão morrer. E eu não podia morrer com esse segredo.
- Onde está Dário?
- No inferno. - ela falou olhando diretamente para mim, sem pestanejar - Eu o matei.
Eu engoli em seco. Não posso dizer que era uma pessoa ingênua. Estava acostumado a lidar com todos os tipos de pessoa. Com ela, todavia, era como se eu tivesse recebido um choque ao saber que a personagem imaginada por mim fora capaz de fazer algo assim.
- Dário era um homem ruim. Ele me torturava. Dizia que me amava, mas constantemente me machucava. E eu não podia fugir dele. Ele sempre me encontrava. E, então, eu o matei. Mas Andrei... Jack... Queria algo que estava com ele. Queria algo que estava comigo. Ele acha que Dário fugiu com os documentos capazes de incriminá-lo. Mas Dário está morto. Eu o matei. Cinco tiros na cabeça. Cinco... Eu o matei.
Uma lágrima foi o que saiu de seus olhos. Uma.
- E os documentos? - forcei-me a perguntar, ignorando que ela era uma assassina.
- Eu os manchei com o sangue dele. E me livrei com fogo - ela tocou o chão, como se estivesse tocando o corpo de seu amante, com a mesma mão que ela me tocou. - Eu espero que você me perdoe por esse tempo - não sabia se falava comigo, com ele ou com seu Deus. - Você pode sair agora. Eu já posso morrer em paz.
Ela voltou a se deitar no chão, e eu deixei-a só, com um peso em meu corpo. Toquei em sua tela uma última vez, e desliguei-a. Sabia que ainda naquele dia receberia a informação de que meus serviços não mais seriam necessários. Ela não mais apareceria naquela tela.
Projeto Mais Que Palavras
Roteiro do mês: "Era só um trabalho. Três anos assistindo-a por aquela máquina. E talvez um parte de mim tivesse se apaixonado por ela, porque eu queria que ela soubesse quem eu era. Até que ela soube."
Indicações:
Rute Dantas | Alesca Larissa

7 comentários
Estou sem palavras haha, de longe seu texto foi o meu predileto! Achei-o incrível, e que você foi muito criativa, uma história dessas não é para qualquer um. Ah, amei seu blog, e voltarei mais vezes :)
ResponderExcluirA Part of Me
Muito obrigada!
ExcluirQue texto maravilhoso moça. Você foi muito criativa, nunca esperaria um texto assim hahah Bjs
ResponderExcluiroh, wow, lovely ❁
Hahaha Muito obrigada! A ideia foi a primeira que surgiu quando li o tema do mês.
ExcluirOoi! Que texto incrível, com toda certeza :D Achei todo o suspense e mistério incríveis, levou-me a querer saber cada vez mais. Parabéns mesmo pelo conto ;)
ResponderExcluirBeijos!
Thoughts and Adventures
Muito obrigada! É que eu queria criar uma história com uma personagem indecifrável, mesmo que estivesse sendo vista por uma tela. E daí surgiu a história hahaha
ExcluirOlha... Você me surpreendeu! Seu conto foi diferente e misterioso! Parabéns
ResponderExcluirwww.belapsicose.com