Para onde ele foi?

by - fevereiro 10, 2016


"Para onde ele foi?" É tão fácil pensar que foi ele que nos abandonou, que nos entregamos rapidamente à ideia de que estamos sozinhos. O friozinho da vazio é melhor recebido que o calor ardente da culpa. Mas por quê? Porque somos fracos e preguiçosos? Ou simplesmente porque somos incapazes de enxergar as pegadas erradas exceto quando retornamos pelo caminho? 

Então você se depara com o início. "De onde ele veio?" Ele passou rápido por você. Num momento era sonho, no outro devaneio. Daí veio a insanidade. Ele chegou destruindo e reconstruindo. Criou novos espaços até que se tornou império. Você não viu seus fantasmas se afastando, pois ele chegou sutilmente. A fera veio calada. Até que, no meio da estrada, soltou seu rugido.

Então, vieram as palavras, as primeiras declarações. O toque de mão já não era alegria momentânea; era necessidade. O aperto vinha da ausência. Ele tomou seu corpo, controlou seus prazeres. Finalmente, você se deu conta de que ele estava ali, tão claro como se sempre tivesse existido. O silêncio já era barulho. As fortes batidas no peito. O sorriso. Vieram as memórias mais felizes, sempre sonhos de uma noite de verão. Era calor e era mais que isso. Era torpor. "Era ilusão."


Não, não era ilusão. Não podia ser que todos os oásis fossem tristes miragens. Não podia ser que cada beijo fosse uma anestesia para aquele mal. Não podia ser... E, ainda assim, era. Era? Não, você pode sentir. Você sentiu que ele estava ali. Você sabia que o sentimento existia. Você sabe que ele ainda existe. Por mais que os sussurros estejam ocultados pelos berros. Por mais que não mais o veja e seus olhos estejam lotados de lágrimas. Como pode que ele estivesse ao seu lado e, do nada, desaparecesse? Mas ele desapareceu. Você ficou com os panos rasgados, as palavras perdidas. Ouviu silêncios, ouviu gritarias. Tentou berrar para a fera voltar, e a fera voltava com outra caricatura. Agora era ódio, rancor pelo deserto em que se estabelecia. "Ele realmente partiu".

Não, ele não não partiu. O amor não vai e volta como se tivesse liberdade de brincar de esconde-esconde. Ele sempre está ali. No entanto, quando o calor de sua companhia se abranda, os fantasmas retornam. E são tantos fantasmas a nos acorrentar.... É a repetição dos passos, a música que parece descombinar. E tem as feridas abertas, aquelas que nunca saram. E tem as feridas que se abrem, facas afiadas de ambos os lados. O império torna-se tragédia. São as labaredas de Nero.

Ah, ele não foi embora. Ele sempre esteve ali. Ainda assim, manteve-se calado a observar as feras interiores, aquelas que o libertam e prendem conforme sentem necessidade. O amor vê tudo e se ressente. Ele não pode fazer nada. O amor não vai a lugar algum. Você é que desiste de ver.

Texto do Projeto Mais Que Palavras

Tema do mês: "para onde vai o amor?"

Indicações:
Lizandra Caroline | Gabrielle Roveda

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2 comentários

  1. Athena,que texto lindo :D É tão carregado de emoção,magia e resume bem o assunto do amor.
    Você escreve muito bem :)
    Vou postar meu texto dia 17,se puder e quiser dar uma olhadinha,ficarei muito agradecida de saber sua opinião <3
    Beijos ^.^
    (littlewonderscrm.blogspot.com.br/)

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