Era a estreia de “No Meio da Rota”, protagonizada por Viola de Andrade, cujo destino dizia-se o amor do povo e da crítica. Viola esperava que a previsão de seu Oráculo de Delfos fosse verdade e que não restasse uma só cadeira vazia.
- Por que ela ainda não está pronta? Este é meu teatro - Viola ouvia o diretor bradar por trás da porta que a separava do restante do mundo.
Massageou as têmporas e retornou ao processo de maquiagem. Não tinha tempo para os chiliques de um diretor medíocre e arrogante. Passou pó em excesso e segurou as lágrimas, pois deixariam um rastro preto em suas bochechas.
A porta se abriu estrondosamente, mas Viola estava concentrada apenas em sua angústia. Suas companheiras, enfeitadas com plumas, exprimiram barulhos não identificáveis. Dirigiram seu olhar a Viola, que, alheia ao momento, continuava sua preparação.
- Sua idiota! Deixe isso de lado e vá para o palco!
As suas colegas começaram a rir. Viola olhou-as, sem entender. O que ela lhes havia feito? Jamais destratara as companheiras. Nem mesmo interagia com elas.
O diretor a pegou pelo pulso, arrastando-a pela coxia, até que Viola foi empurrada para um amplo local e deixada à mercê de sua solidão. O palco. Mas algo estava errado. Onde estavam as pessoas?
Teria que improvisar.
- Ouçam todos que aqui se encontram. Chega o dia em que todos por todos devem cair, não importando o início ou o fim da rota, mas o momento em si.
Era a vez de outro personagem. Ninguém, porém, apareceu. Se era um monólogo que queriam, era isto que lhes daria. Ela não precisava de mais ninguém. Ou precisava?
- Cantem suas odes de glória e suas líricas de amor, pois é chegado o dia em que a misericórdia não será presente divino e somente a ilusão pode amenizar a dor
Uma luz se acendeu à frente do palco. Viola focou na plateia. Havia somente um homem na primeira fileira das cadeiras superiores. Ela não podia desistir enquanto ainda houvesse um espectador.
As luzes voltaram a se apagar. O que estava acontecendo?
Olhou em volta. Nada podia ser visto ou ouvido. Não! Havia um ruído... Várias vozes unidas. Vinham de todos os cantos, rodeando-a como ratos.
- Chora a bailarina, chora. Não soube dançar a dança da vida. Caiu torta na rota. Caiu morta na lida.
De onde vinha isto? Por que ela não tinha conhecimento das alterações? Quem era mais importante do que ela? Aquele diretor...
- Quebre a perna jovem bailarina, mas não espere pelo quebra-nozes, pois somos todos cisnes negros cantando, rogando pragas em rimas.
Ela queria fugir, mas não podia sair da cena. Ela era estrela. Podiam mudar as falas, os traços. Ela, contudo, sempre contornaria a situação.
Um luz se acendeu à direita e um das meninas de plumas apareceu entre pessoas de manto negro.
- A andorinha teme que um dia perca o timbre de sua voz – interrompendo de forma atroz, como se recitasse um Haikai desformado, muda a rota de sua fala – Cortem-lhe a cabeça!
A luz se acende do lado esquerdo.
- Calam-se os defensores. A andorinha não tem escolha, ou corre e morre pelas garras, ou permanece e perece pela indiferença.
Ela não entende o joguete de falas. Compreende a técnica, mas não absorve a essência. Estaria o público único compreendendo a ideia?
Outra luz se acende à frente, onde repousa um papel. Alguém a empurra, e Viola cai a poucos centímetros da folha.
- A princesa chora, pois não sabe o que há de vir. Então, os deuses lhe concedem a profecia que tanto deseja. Decida logo, jovem princesa, se tenta alterar seu destino. Mas em nenhum momento se esqueça de que nem mesmo os deuses conseguem mudar o tocar do sino.
Sinos tocam. Uma luz fraca se acende sobre uma passeata entre as cadeiras, lideradas por uma pessoa de roxo carregando uma cruz. Onde arranjaram tanto atores?
- Conte-nos, conte-nos o que tanto esperamos ver. Pagamos por seu espetáculo. O que há de acontecer?
Viola pegou o papel, um tanto assustada. Pigarreia, pois não está preparada.
- Parece-me que estou perdendo tudo...
- Prossiga!
- Não tenho nem mais a habilidade de criar um discurso...
Qual a conexão entre o agente do discurso e as palavras que acaba de proferir?
- Menina petulante, seja você e trate de se adequar ao meu teatro! - ela ouve o diretor falar e percebe que é o homem sentado.
“Seja você...” É um pensamento dela?
- Os amigos crescem e desaparecem. Eu saio de fininho, como se não gostasse da festa. A verdade é que as luzes se apagam – as luzes diminuem drasticamente –, e eu sei que está na hora de começar uma nova peça. Para finalizar meus atos, nada melhor do que criar um drama. Inicio com o esquecimento de falas, passando para a surdez das falas alheias. Mais tarde não vejo com quem contraceno, criando a tensão no palco.
Corpos passam por ela, ignorando sua presença. O discurso tomava vida, enquanto o orador perdia a sua.
- A euforia torna-se desespero, e o alívio só chega quando as cortinas fecham.
Atrás dela, as cortinas se fecham abruptamente.
- É o fim da noite. Não mais verei meus colegas de palco. Talvez algum dia eu veja uma foto do fatídico espetáculo, talvez recorde do texto original. Talvez eu ria das cenas erradas ou talvez eu chore pelo já esperado final. Eu sei, no entanto, que chegará o dia em que serei a única estrela. Não existirão mais atores me fazendo companhia, nem espectadores assistindo minha decadência. Por que já usei todos os que me envolviam, e todos desistiram de contracenar comigo. O cachê não era o suficiente pela dor daquele teatro. As pessoas cansam de viver meus dramas.
As luzes se apagam, para acenderem, em sua totalidade, nos segundos seguintes. Viola joga-se no chão aliviada, embora lágrimas rolem por sua face. Ouve as palmas ao fundo. Seu choro não se mistura com a alegria de um espetáculo aplaudido. É absorvida pelo teatro quando pisa no palco; absorve o palco quando o deixa. Ela tem dificuldade para respirar. Ela não era a personagem. A personagem era ela.
Viola olha para as pessoas que não se encontravam presentes. Encara seus rostos e, antes de perecer, pensa: “os anjos aplaudem meus demônios”.
- Por que ela ainda não está pronta? Este é meu teatro - Viola ouvia o diretor bradar por trás da porta que a separava do restante do mundo.
Massageou as têmporas e retornou ao processo de maquiagem. Não tinha tempo para os chiliques de um diretor medíocre e arrogante. Passou pó em excesso e segurou as lágrimas, pois deixariam um rastro preto em suas bochechas.
A porta se abriu estrondosamente, mas Viola estava concentrada apenas em sua angústia. Suas companheiras, enfeitadas com plumas, exprimiram barulhos não identificáveis. Dirigiram seu olhar a Viola, que, alheia ao momento, continuava sua preparação.
- Sua idiota! Deixe isso de lado e vá para o palco!
As suas colegas começaram a rir. Viola olhou-as, sem entender. O que ela lhes havia feito? Jamais destratara as companheiras. Nem mesmo interagia com elas.
O diretor a pegou pelo pulso, arrastando-a pela coxia, até que Viola foi empurrada para um amplo local e deixada à mercê de sua solidão. O palco. Mas algo estava errado. Onde estavam as pessoas?
Teria que improvisar.
- Ouçam todos que aqui se encontram. Chega o dia em que todos por todos devem cair, não importando o início ou o fim da rota, mas o momento em si.
Era a vez de outro personagem. Ninguém, porém, apareceu. Se era um monólogo que queriam, era isto que lhes daria. Ela não precisava de mais ninguém. Ou precisava?
- Cantem suas odes de glória e suas líricas de amor, pois é chegado o dia em que a misericórdia não será presente divino e somente a ilusão pode amenizar a dor
Uma luz se acendeu à frente do palco. Viola focou na plateia. Havia somente um homem na primeira fileira das cadeiras superiores. Ela não podia desistir enquanto ainda houvesse um espectador.
As luzes voltaram a se apagar. O que estava acontecendo?
Olhou em volta. Nada podia ser visto ou ouvido. Não! Havia um ruído... Várias vozes unidas. Vinham de todos os cantos, rodeando-a como ratos.
- Chora a bailarina, chora. Não soube dançar a dança da vida. Caiu torta na rota. Caiu morta na lida.
De onde vinha isto? Por que ela não tinha conhecimento das alterações? Quem era mais importante do que ela? Aquele diretor...
- Quebre a perna jovem bailarina, mas não espere pelo quebra-nozes, pois somos todos cisnes negros cantando, rogando pragas em rimas.
Ela queria fugir, mas não podia sair da cena. Ela era estrela. Podiam mudar as falas, os traços. Ela, contudo, sempre contornaria a situação.
Um luz se acendeu à direita e um das meninas de plumas apareceu entre pessoas de manto negro.
- A andorinha teme que um dia perca o timbre de sua voz – interrompendo de forma atroz, como se recitasse um Haikai desformado, muda a rota de sua fala – Cortem-lhe a cabeça!
A luz se acende do lado esquerdo.
- Calam-se os defensores. A andorinha não tem escolha, ou corre e morre pelas garras, ou permanece e perece pela indiferença.
Ela não entende o joguete de falas. Compreende a técnica, mas não absorve a essência. Estaria o público único compreendendo a ideia?
Outra luz se acende à frente, onde repousa um papel. Alguém a empurra, e Viola cai a poucos centímetros da folha.
- A princesa chora, pois não sabe o que há de vir. Então, os deuses lhe concedem a profecia que tanto deseja. Decida logo, jovem princesa, se tenta alterar seu destino. Mas em nenhum momento se esqueça de que nem mesmo os deuses conseguem mudar o tocar do sino.
Sinos tocam. Uma luz fraca se acende sobre uma passeata entre as cadeiras, lideradas por uma pessoa de roxo carregando uma cruz. Onde arranjaram tanto atores?
- Conte-nos, conte-nos o que tanto esperamos ver. Pagamos por seu espetáculo. O que há de acontecer?
Viola pegou o papel, um tanto assustada. Pigarreia, pois não está preparada.
- Parece-me que estou perdendo tudo...
- Prossiga!
- Não tenho nem mais a habilidade de criar um discurso...
Qual a conexão entre o agente do discurso e as palavras que acaba de proferir?
- Menina petulante, seja você e trate de se adequar ao meu teatro! - ela ouve o diretor falar e percebe que é o homem sentado.
“Seja você...” É um pensamento dela?
- Os amigos crescem e desaparecem. Eu saio de fininho, como se não gostasse da festa. A verdade é que as luzes se apagam – as luzes diminuem drasticamente –, e eu sei que está na hora de começar uma nova peça. Para finalizar meus atos, nada melhor do que criar um drama. Inicio com o esquecimento de falas, passando para a surdez das falas alheias. Mais tarde não vejo com quem contraceno, criando a tensão no palco.
Corpos passam por ela, ignorando sua presença. O discurso tomava vida, enquanto o orador perdia a sua.
- A euforia torna-se desespero, e o alívio só chega quando as cortinas fecham.
Atrás dela, as cortinas se fecham abruptamente.
- É o fim da noite. Não mais verei meus colegas de palco. Talvez algum dia eu veja uma foto do fatídico espetáculo, talvez recorde do texto original. Talvez eu ria das cenas erradas ou talvez eu chore pelo já esperado final. Eu sei, no entanto, que chegará o dia em que serei a única estrela. Não existirão mais atores me fazendo companhia, nem espectadores assistindo minha decadência. Por que já usei todos os que me envolviam, e todos desistiram de contracenar comigo. O cachê não era o suficiente pela dor daquele teatro. As pessoas cansam de viver meus dramas.
As luzes se apagam, para acenderem, em sua totalidade, nos segundos seguintes. Viola joga-se no chão aliviada, embora lágrimas rolem por sua face. Ouve as palmas ao fundo. Seu choro não se mistura com a alegria de um espetáculo aplaudido. É absorvida pelo teatro quando pisa no palco; absorve o palco quando o deixa. Ela tem dificuldade para respirar. Ela não era a personagem. A personagem era ela.
Viola olha para as pessoas que não se encontravam presentes. Encara seus rostos e, antes de perecer, pensa: “os anjos aplaudem meus demônios”.
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