Um reunião entre estranhos

by - fevereiro 22, 2016


Eu sei, estou nervosa. Faz algum tempo que não estou acostumada com seus atrasos. Vinte minutos já. Talvez eu deva pedir um café antes que eles cheguem. Ou talvez não. Talvez eles nem venham. Nesse caso, deveria pedir um café. Pelo menos o trajeto não teria sido em vão.

Quando termino de fazer o pedido, a porta da confeitaria se abre. Eles passam por ela, rindo de algo que não posso ouvir, algo que eu jamais poderia compartilhar. Ele faz caras e gestos demonstrando que a conversa era animada. Ela ri alto. Então, para e me vê. Seu semblante fica sério por um tempo, mas logo é substituído por um sorriso amarelo. Eu tento sorrir, mas sei que nada de bom sairá dali. Nunca fui boa em expressar aquilo que não sinto. Eu aceno levemente. Ela olha para ele. Ele já parou de falar, pois percebeu que havia entrado numa zona perigosa. Bombas podiam cair a qualquer minuto. Não cairiam, porém. Seriam apenas sorrisos.   [Continuar]

Ele retribui o olhar dela e se vira para mim. Abre seus lábios, embora veja tanta sinceridade quanto em meu sorriso. Eles seguem para a minha mesa. Cumprimentos são trocados. Então, todos sentados, tentam encontrar algo sobre o que conversar. Os cafés chegam e acabam. Nada de importante é revelado. "Como você está?" "Estou bem, obrigada. E vocês?" "Nossa, faz tantos anos" "Lembra daquilo?" "Não. Como era?" "Como podíamos?" "Éramos loucos".

- Bom, antes que eu esqueça, tenho que entregar os convites para vocês - A conversa fora prolongada o suficiente. As obrigações foram cumpridas, e o encontro podia ser encerrado. Não podia correr o risco de passar por isso novamente.

- Que lindo. É tão emocionante ver meus amigos passando por esses momentos da vida...

Amigos. A palavra ecoa como se fosse estranha aos nossos ouvidos. É repassada inúmeras vezes, mas nada pode ser extraído dela. Não éramos amigos. Éramos um passado arrastado para o presente por conveniência. Éramos estranhos fingindo um amor inexistente.

- Nunca imaginamos que seria assim...

Pergunto-me se alguma daquelas palavras seria recordada nos momentos posteriores. O que estávamos fazendo? Por que nos obrigávamos a tamanha tortura e tédio?

- Bom, tenho que ir. Espero ver vocês por lá.

- Nunca perderíamos a chance de vê-la.

Mas perderam. Perderam tantas vezes, da mesma forma que eu perdi. Não liguei nos aniversários. Não mandei convites nas festas de ano novo. As risadas passaram a me incomodar. Percebi distâncias em nossos pensamentos. Lacunas criaram-se nas rotinas. A amizade fragmentou-se.

- Eu sei que não.

Faltou o "amo vocês", porque era uma mentira que eu não conseguiria contar. Eu saí do café e olhei por cima do ombro para ver a porta de vidro se fechar. Pude ver eles voltarem a rir. Não, não era de mim, mas não era comigo. Por um instante desejei chorar. Já havia, contudo, uma barreira de vidro entre o que eu deveria sentir por eles e o que eu, de fato, sentia. Eles já eram um passado distante, trancado por portas pesadas de vidro. Eu só precisava esperar que esse vidro escurecesse e que eu não mais olhasse para aquela passagem.

Segui em frente, como sempre fazia. O telefone voltaria a tocar em algum momento. Eu voltaria àquele local. Eu abriria novamente aquela porta e, novamente, a fecharia.

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