Dolores desligou o rádio antes que a lista de mulheres brancas e poderosas se estendessem além de sua capacidade de memorização. Não discordava da grandeza de tais mulheres. Afinal, apenas o fato de nasceram com um órgão genital feminino parecia lhes conceder um peso enorme a ser carregado. Todo dia carregavam em seu útero a dor do machismo. Ela só queria que algumas de suas ancestrais talvez estivessem lá, na lista mal formulada por aquele homem de voz irritante. Ou talvez pessoas que todos desconhecessem e que tivessem lutado mais ativamente pela construção - ou desconstrução - da figura feminina - feminista.
O aparelho continuava a chiar na bancada da cozinha, como se obrigasse Maria Dolores a captar sua mensagem. Independente de quem tivesse figurado na luta ou de quais nomes fossem mencionados, não haviam as mulheres conseguido tudo aquilo que almejavam? Eram livres para votar, livres para trabalhar e até mesmo livres para escolher seus maridos. Obviamente, não havia a alternativa não escolher maridos. Ela riu. Quem pensaria em ficar sozinha? A mulher conseguira tanta coisa, que um marido em casa para confortá-la e dar-lhe apoio e segurança tornara-se uma essencialidade. Dolores tinha o dela, conquistado em uma dificílima disputa entre leoas. Nenhuma delas com o porte dela.
