A Mulher em Seu Túmulo de Ouro
Dolores desligou o rádio antes que a lista de mulheres brancas e poderosas se estendessem além de sua capacidade de memorização. Não discordava da grandeza de tais mulheres. Afinal, apenas o fato de nasceram com um órgão genital feminino parecia lhes conceder um peso enorme a ser carregado. Todo dia carregavam em seu útero a dor do machismo. Ela só queria que algumas de suas ancestrais talvez estivessem lá, na lista mal formulada por aquele homem de voz irritante. Ou talvez pessoas que todos desconhecessem e que tivessem lutado mais ativamente pela construção - ou desconstrução - da figura feminina - feminista.
O aparelho continuava a chiar na bancada da cozinha, como se obrigasse Maria Dolores a captar sua mensagem. Independente de quem tivesse figurado na luta ou de quais nomes fossem mencionados, não haviam as mulheres conseguido tudo aquilo que almejavam? Eram livres para votar, livres para trabalhar e até mesmo livres para escolher seus maridos. Obviamente, não havia a alternativa não escolher maridos. Ela riu. Quem pensaria em ficar sozinha? A mulher conseguira tanta coisa, que um marido em casa para confortá-la e dar-lhe apoio e segurança tornara-se uma essencialidade. Dolores tinha o dela, conquistado em uma dificílima disputa entre leoas. Nenhuma delas com o porte dela.
Ela não era a mulher ideal? Era por este motivo que seu marido a havia selecionado. Ele, um homem de porte como os mocinhos de todos os filmes, esperava pela mulher certa, aquela feminina, bonita, vaidosa na medida, compreensiva, trabalhadora, bem humorada, desencanada, até meio homem na hora da diversão - ah, e que amava um bom sexo (exclusivo), mas que se faza de lady na frente dos conhecidos (sexo oral? Desconheço. Sexo Anal? Não fale isto na minha frente. Amor, faz isso por mim? Claro, meu bem. Por você eu faço tudo). Então Dolores aparecera em sua vida, trazendo o que de melhor podia haver nele. Nele, claro. Era sempre ele o protagonista. Ela? Era a mulher por trás de todo grande homem, a merecedora de uma singela rosa no dia das maravilhosas mulheres.
Ela era como todas as personagens femininas boas dos filmes. Sua missão era sempre trazer o que de melhor podia haver no homem. Ela já era boa o suficiente, então não precisava prestar atenção em si. Precisava era olhar para o homem com quem se deitava todas as noites e com quem fazia um amor que a levava às nuvens ainda que em dias tempestuosos. Dolores era como qualquer uma das mulheres que faziam par romântico com o James Bond. Quais eram os nomes delas mesmo? Ela não conseguia se lembrar. Era...
Descartável. Este era o nome dado a todas as representações das mulheres na tela do cinema, no rádio e até mesmo naqueles livros em que sempre havia um mocinho super poderoso capaz de salvar a inútil donzela. Descartável. Inútil. Indiferente. Elas tinham voto, elas tinham trabalho, elas tinham casa própria e o direito de escolher o macho de suas vidas. Elas tinham poder sobre os homens - que homem não ficaria louco com uma mulher linda e bem sucedida? O que elas ainda não tinham era escolha plena, mas apenas uma escolha limitada às novas opções concedidas pelos relatores de seus destinos. "Neste 08 de março, relembremos a quantidade de vidas que se foram sem verem seus sonhos alcançados".
Sonho. Ela acordou do sonho. Respirou profundamente. Ao seu lado deveria estar o marido, aquele que lhe dava atenção quando bem entendia, que deixava com ela a responsabilidade do bem-estar da casa, uma vez que era seu papel como mulher, que exigia dela a santidade inexistente em 99% dos seres humanos, e que repreendia de diversas formas seres femininos como ela. Ao olhar para o seu lado, contudo, viu que ele não estava ali. Não havia espaço para ele. Não havia sequer espaço suficiente para ela. Isolada, ela percebeu, com horror, que perecia em um túmulo.
Projeto Mais Que Palavras. Tema do Mês: Mulheres.
Indicações: Rachel Moraes - Simone Cajá - Cora Mariana
Parabéns a todas nós, que a cada dia damos um passo em direção à nossa liberdade, não somente no dia 08/03, mas em todos os dias de nossa luta. Ainda que tenhamos conquistado mais direitos do que desfrutávamos há 100 anos, permanecemos escravas da ditadura machista. Somos alvos de crítica cotidianamente por nossas atitudes liberais e não convencionais, por nossas escolhas independentemente de quais sejam, pela nossa simples existência. Vivemos a ilusão de já atingimos o auge, quando nos enganam e nos confundem com seres incapazes de diferenciar liberdade e rosas. Mas não somos - não podemos ser. Devemos entender que liberdade é a capacidade de fazer escolhas. Enquanto nos ditarem o que é moralmente correto por sermos mulheres, seremos fantoches e não mulheres. Honremos aquelas que deram o nome e a cara ao movimento, que sofreram caladas e demonstraram força frente à covardia da opressão. Honremos nossos nomes. Sejamos apenas quem somos, independente de como nascemos. Não sejamos o que quererem que sejamos. Saiamos deste túmulo de ouro coberto de rosas em que estamos aprisionadas e voemos em direção ao destino que desejamos.

3 comentários
Muito bom seu texto, se tem uma coisa que gosto de fazer tarde da noite é visitar blog e ler contos ... Estarei sempre aqui.
ResponderExcluirBeijos
http://metadedascoisas.blogspot.com.br
Adorei o modo como abordou o tema. A mulher moderna não deve limitar-se e viver como a sociedade quer. Liberdade!!!! Bjsss www.janelasingular.com.br
ResponderExcluirMuito bom o texto!
ResponderExcluirO importante é que cada uma busque aquilo que a faz feliz, ainda que não seja o que os outros querem.
Abraços Mika,
Pensamentos Viajantes