Do Outro Lado da Janela

by - fevereiro 20, 2015


O que você vê quando olha pela janela de sua casa?

Da janela da sala, eu vejo uma senhora curvada, carregando duas sacolas cheias de compras, provavelmente tão cheias quanto sua própria vida. Ela chegará em casa e encontrará as pessoas de sempre. Filhos que não notam sua existência. Marido que só nota na hora da comida. Ela não sabe mais o que é sorrir ou chorar, então não expressa nada sob o peso da carga que deve carregar. Ela passa pelo seu prédio com pressa e sem olhar o intruso. Ela só quer chegar ao fim do caminho.

Da janela da cozinha, vejo uma garotinha sentada, debruçada sobre a caixa de chocolates que alguém esqueceu sobre a mesa do apartamento ao lado. Ela olha em volta; não há ninguém mais no recinto. Ninguém notará sua traquinagem. Ninguém a repreenderá. Ninguém a perceberá. Ela come todo o chocolate na caixa, deixando a face lambuzada do doce. O excesso de doce é saciado pela lágrima. Ela vê que você a flagrou. Sai correndo da cozinha para fingir que não passou de uma ilusão. Afinal, nunca ninguém assiste ao que se passa com ela mesmo.

Da janela do quarto de seus pais, você consegue ver um casal. Possivelmente, cuidam de uma criança rechonchuda que se distrai em brincadeiras. Aproveitam o momento de distração do filho ou da filha para fingir que mal se conhecem. O pai absorto em um livro sem sentido; a mãe absorta em outros pais. A criança absorta em seu próprio mundo de fuga.

Da janela de sua irmã, você vê melhor a criança abandonada. Embora ainda não tenha idade para compreender, ela sabe que algo está errado. Ao seu lado não estão as pessoas que deveriam estar ajudando a construir seu mundo. Ela olha para as pessoas ao lado e, baseada nessa visão distorcida da infância e da ingenuidade, cria aquilo que será o seu momento. O momento irá passar e se tornará um universo. Ela esquece que os pais a esqueceram e volta a brincar. Ela não ri. Se na vida tudo é uma brincadeira, ela brincará de ser triste.

Você chega à última janela à qual dá importância. Não quer ver o que se esconde nas privadas vistas pela janela de um banheiro. Vida privada é vida privada. Então a última que importa é a janela de seu próprio quarto, aquela que você mais teme ver. E por quê? Porque é a janela de uma verdade não dita. É o resumo de todas as outras. É a casa em sua visão de mundo. E quando você se atreve a dar uma olhada, prefere nunca ter tido a ideia de começar. É uma janela para o nada. Um muro se ergue alto ao lado da construção que você habita. É um muro insosso e, ao mesmo tempo, quase como o de um beco sem saída. Sente-se num filme de Hitchcock acrescentado de um beco de suspense ordinário. Você se vê nesse beco entre dois prédios. Você está de frente para uma parte sem janelas do outro. Sua vida é uma completa cegueira.

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4 comentários

  1. Caramba. Sem mais palavras para esse texto, e para sua escrita. Você tem uma visão maravilhosa sobre o mundo, altamente crítica ao mesmo tempo tão amável e sem ser boba. Amei cada um de seus textos, cada vírgula de todos eles. Você tem muito talento e sem dúvidas merece muito reconhecimento.
    Que blog amável, já estou seguindo sem dúvidas!!

    Beijão,
    www.garotaroyal.blogspot.com

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    1. Nossa, muito obrigada! Sinto-me muito grata por vocês acharem meus textos (meio sem sentido às vezes hahahah) bons.

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  2. Que texto. Salvei como um dos meus favoritos e estou seguindo o blog. Vou adorar lê-lo de vez em sempre! Escreves muito bem e muito boas histórias. Um beijo.

    Eu.Nomadiando

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    1. Muito obrigada! Espero que o que eu escrever de agora em diante continue agradando e fazendo jus à sua visita.

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