O que você vê quando olha pela janela de sua casa?
Da janela da sala, eu vejo uma senhora curvada, carregando duas sacolas cheias de compras, provavelmente tão cheias quanto sua própria vida. Ela chegará em casa e encontrará as pessoas de sempre. Filhos que não notam sua existência. Marido que só nota na hora da comida. Ela não sabe mais o que é sorrir ou chorar, então não expressa nada sob o peso da carga que deve carregar. Ela passa pelo seu prédio com pressa e sem olhar o intruso. Ela só quer chegar ao fim do caminho.
Da janela da cozinha, vejo uma garotinha sentada, debruçada sobre a caixa de chocolates que alguém esqueceu sobre a mesa do apartamento ao lado. Ela olha em volta; não há ninguém mais no recinto. Ninguém notará sua traquinagem. Ninguém a repreenderá. Ninguém a perceberá. Ela come todo o chocolate na caixa, deixando a face lambuzada do doce. O excesso de doce é saciado pela lágrima. Ela vê que você a flagrou. Sai correndo da cozinha para fingir que não passou de uma ilusão. Afinal, nunca ninguém assiste ao que se passa com ela mesmo.

