La Belle Internet

by - fevereiro 03, 2015



Ela chegou em casa e largou a mochila sobre a cama. Não se lembrou de dizer oi ao pais ou aos irmãos. Quem perderia tempo com eles se poderia gastá-lo em algo melhor? Foi a desculpa que deu a si, revirando os olhos diante da obviedade.
Esperou impaciente que o computador ligasse. Até ele tramava contra ela. Então, a tela brilhou diante de seus olhos, e seus olhos também brilharam. Finalmente ela estava livre para ser feliz.
Clicou no ícone da internet, já sorrindo. Era tão bom inteirar-se do mundo inteiro enquanto fugia de seu próprio mundo. Quem precisava daquela escola medíocre com pessoas medíocres com assuntos medíocres? Ninguém. Ela tinha algo muito melhor: uma vida fora dali.
Sua página inicial era o blog do momento: "Espelho Invertido". Uma menina linda esbanjava sorrisos na foto de perfil - e ao longo das publicações, em mais fotos publicadas nas suas redes sociais. Ela era perfeita. Ela não se incomodava com o mundo ao redor dela, porque ela era o mundo. Ela podia ser tudo o que ela não era. Bella... Todos queriam ser como ela. Ela era tão... tão única. Ela sorriu novamente. Ela era tão diferente de Bella também. Não falava com ninguém - e nem se esforçava, era melhor do que todos naquele local. Não gostava de expor sua opinião - era desnecessário expor a quem não entenderia. Ninguém reparava em sua beleza - as pessoas eram cegas. Sorriu de novo. Ela definitivamente queria ser como Bella. Sorte sua que ela já era ela.

Apresentando mais um post do projeto "Mais que Palavras" (o tema anterior foi expectativas). O tema do mês? Internet.

A bela internet. Alterou bastante as nossas vidas, não? Lembro-me que quando eu era pequena, usava a internet de vez em quando, somente aos finais de semana, sob o risco de não receber ligações importantes - se um parente morresse, oops! Só íamos saber quando a Athena largasse o computador (para as coisas importantes como filmes reservados na locadora, daí sim, fazíamos aquele esquema super legal, com um código do qual não me lembro, para desviar as ligações para os celulares dos genitores, porque criança não tinha celular na época). A primeira vez em que a internet impactou minha vida social, foi aos doze anos, quando pedi para usar a recém instalada banda larga com acesso limitado durante um dia de semana, pois minha amiga estava com problemas com o paquera dela. E quem diria que hoje eu não viveria sem? - Eu mato por um sinal de 3g hoje.

 Só melhorou a nossa vida, não é? Temos acesso a tudo o tempo todo, como bem entendemos, como seria diferente? Não quero parecer aquelas pessoas chatas e antigas que ficam falando "ah, os jovens de hoje, e esse treco chamado internet, que aliena essas cabecinhas fáceis". Não quero falar sobre alienação, sobre distorção de verdade, nem sobre a preguiça mental ocasionada pela internet - por favor, quem quer pensar faz isso com ou sem internet. Eu quero falar sobre quem somos.

O lado mais belo da internet é que podemos ser quem queremos dentro dela. Sentimo-nos livres, porque a ocultação da realidade é gigante. Não precisamos nos atrelar ao que o nosso corpo viveu. Podemos nos reinventar, conhecer pessoas que nos entendam, mas que o destino cruel não quis colocar ao nosso lado fisicamente. Ao mesmo tempo, podemos ignorar as pessoas com quem ele nos obrigou a conviver e criar uma nova história. Temos finalmente o poder de sermos quem desejamos ser.

Todavia, muitas vezes aquilo que desejamos ser está interligado com o que achamos que deveríamos ser e nem sempre ao que queremos ser, mas não somos por inúmeros fatores. Boa parte da minha vida quis ser algo, para descobrir posteriormente que, talvez, eu não fosse nada daquilo e, quando me tornei o que queria, passei a não me identificar mais. Assim, é possível que a internet nos reinvente de forma a perdermos nossas personalidades. Num dado momento, podemos ser nós, a pessoa por trás da tela, e, no outro, seremos o mundo inteiro, menos quem mais importa.

A internet, como tudo, pode ser um rota de fuga para nossos maiores receios, mas não devemos ocultar nossa essência por palavras e imagens. Seres humanos são completos, são o conjunto da obra, são as mãos que fazem e os olhos que veem, mas também são a própria arte. Temos que encontrar em nós mesmo quem de fato somos e saber separar essa pessoa do que o mundo inteiro deseja dela. Não precisamos ser alguém com inúmeros seguidores nas redes sociais que sequer cumprimenta quem está ao lado.


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5 comentários

  1. Texto incrível!! Vc citou o lado positivo da internet. Eh verdade, muitas pessoas são preguiçosas para pensar e isso independe da internet. Bjsss

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    1. Muito obrigada! Eu acho muito estranho que as pessoas pensem que a internet só aliena. Muitas pessoas já eram alienadas antes mesmo dela (e livros já existem há muitos anos, e no último século houve um aumento da alfabetização)

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  2. Você sempre se superando. Eu AMO a maneira como você escreve, seus textos são tão sentimentais para mim, de uma maneira muito boa. Me passa exatamente a mensagem que quero ouvir. Você tem uma opinião forte, e impactante, porém ao mesmo tempo é pessoal e delicada, e isso se transfere para seus textos. E concordo plenamente, muita parte da internet esconde quem realmente somos, afinal podemos ser quem quisermos aqui. Mas não podemos esquecer que sempre haverá consequências, não importa onde estivermos!

    Amei♥
    www.leuxclair.com.br

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  3. Muito muito obrigada! Acho interessante quando meu vômito de palavras tem sentido para as outras pessoas também hahahah. E quanto às consequências do que fazemos, acho que esta é a grande mensagem da vida: nada do que fazemos é um evento isolado. Nem mesmo a internet pode mudar isto. É o grande efeito borboleta.

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  4. Texto muito bonito! :D Bom ver este bom ponto de vista sobre. :) É, refletindo após ler, realmente a internet mascara o que e quem as pessoas realmente são, né? Amei o texto! ^^
    Beijo, Min - http://www.yasminbueno.com/

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