Estou no limiar da insanidade. Perdida nas entranhas que compõem meu encéfalo (o grande, oh, grande ser de sabedoria), estou cega, estou mais míope do que costumo ser. Estou dispersa no emaranhado de opiniões e pensamentos que me constroem e que tentam me converter. São todos caminhos que posso seguir e que tentam me convencer. Eu ando à meia-noite perdida, entre a escuridão noturna e o amanhecer, tentando me conhecer.
E nessa meia-noite, descubro-me sozinha, num lugar ermo, com roupas inapropriadas, quase nua. Na paisagem, letreiros de que estou prestes a ser corrompida. Eu sou aquela que procura os monstros dos meus pesadelos. Eu estou nua quando deveria estar vestida. E ele sente meu cheiro. O lobo caça meu odor, ele sente fome. Não tenho vestimentas para disfarçar minha posição. A fera caça a criança ingênua. E quando ele rompe o lacre da minha consciência, ouço os sussurros da inconformidade. Família, amigos e até desconhecidos repetem que a culpa nunca foi minha, que a culpa foi de monstros que andavam calados, mas que eu nunca mais posso andar solta e despida, pois monstros sempre espreitam os pássaros desavisados. Os pássaros não deviam abrir suas asas em mares de monstros. E como o mundo é uma eterna madrugada assombrada, os pássaros não deveriam voar. A culpa nunca foi sua, mas você não fez o suficiente para evitar.
