Estou no limiar da insanidade. Perdida nas entranhas que compõem meu encéfalo (o grande, oh, grande ser de sabedoria), estou cega, estou mais míope do que costumo ser. Estou dispersa no emaranhado de opiniões e pensamentos que me constroem e que tentam me converter. São todos caminhos que posso seguir e que tentam me convencer. Eu ando à meia-noite perdida, entre a escuridão noturna e o amanhecer, tentando me conhecer.
E nessa meia-noite, descubro-me sozinha, num lugar ermo, com roupas inapropriadas, quase nua. Na paisagem, letreiros de que estou prestes a ser corrompida. Eu sou aquela que procura os monstros dos meus pesadelos. Eu estou nua quando deveria estar vestida. E ele sente meu cheiro. O lobo caça meu odor, ele sente fome. Não tenho vestimentas para disfarçar minha posição. A fera caça a criança ingênua. E quando ele rompe o lacre da minha consciência, ouço os sussurros da inconformidade. Família, amigos e até desconhecidos repetem que a culpa nunca foi minha, que a culpa foi de monstros que andavam calados, mas que eu nunca mais posso andar solta e despida, pois monstros sempre espreitam os pássaros desavisados. Os pássaros não deviam abrir suas asas em mares de monstros. E como o mundo é uma eterna madrugada assombrada, os pássaros não deveriam voar. A culpa nunca foi sua, mas você não fez o suficiente para evitar.
E a insanidade convence-me de que é minha dona, pois não enxergo os avisos de cautela que tentam me mostrar. Apresentam-me folhetos, livros, grandes textos e poemas, e o nada apenas é o que consigo enxergar. Não entendo como pude vir ao mundo para não voar, para não ver madrugadas sem me preocupar, para vestir-me como santa em pedestal de igreja. Como pude eu? Como posso eu? Como pode um ser tão racional não enxergar que, se até mesmo os pudores são corrompidos, os despudores certamente o seriam. Como podem meus óculos não mostrar a dura realidade em que vivo?
Não somente fisicamente me sinto cega. Sinto que também o sou psicologicamente. Às vezes, sinto que nasci com a cabeça virada pra baixo, enxergando o mundo às avessas. E às avessas aprendi a ser. Aprendi a ser errada com o pensamento de que estou certa. E não enxergo a certeza dos outros refletida em meus erros. E acabo chorando, porque parece que não me encaixo. Talvez meus óculos sejam grandes demais para a caixa em que tentam me colocar. E no fim de tudo, nunca sei, ao certo, quem certo está. Pois eu tenho a visão distorcida, com a dúvida acerca do que de distorcido possui o outro ao meu lado? Como domar os olhos meus, colocar os freios de um cavalo?
Como domar esse ser que quer ser livre e que enxerga cores no preto e branco? Óculos não me servem, então, quem sabe, outra vida...
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