A Ilha

by - novembro 02, 2015

Fonte: We Heart It

Éramos apenas crianças, eu sei. Éramos criaturas que sequer sabiam pronunciar as palavras. E, ainda assim, pronunciávamo-las. A forma não era perfeita, mas a intenção era clara. E quando você me deu sua mão pela primeira vez, eu acreditei que pularíamos em todos os penhascos da vida. Eu acreditei que você me seguraria. Construímos aquele barco juntos e juntos entramos no oceano. Eu acreditei que você me acompanharia na travessia. Mas eu falhei de inúmeras maneiras. Inclusive em apenas acreditar em você.

Quando eu quis dar meu primeiro passo, navegar por aquelas águas estranhas, eu senti sua mão suando na minha – junto à minha – e eu tive medo. Eu freei. Eu larguei os remos. Quando a onda veio, e quando ficamos à deriva, eu achei que você estivesse me segurando naquele ponto sem saída. Então, eu me esqueci de todas as promessas e crenças. Eu não entendi que você queria estar comigo. E eu larguei sua mão, perdendo-o rumo ao infinito. Eu constituí universos separados.

O incrível foi que, por muitos anos, sentia o suor ainda em meus dedos e não compreendia o que havia feito. Perguntava-me de que forma nossos dedos entrelaçados haviam sido separados. Seria a força do tempo? Certamente, teríamos nos cansado. Minha mente apagara aqueles breves segundos em que tomei a decisão de lhe deixar para trás por medo de ficar para trás.

Era para a gente estar junto nessa. Era para que navegássemos juntos, criássemos histórias. Hoje você vive a sua, devendo lembrar-se de mim como aquela que o abandonou quando as lágrimas lhe caíam pela face. Eu fui aquela que jogou o medo em sua cara por medo de tê-lo jogado em mim. Eu fui aquela que, por egoísmo, largou a sua mão durante a correnteza. 

Eu queria dizer que a culpa foi o maior motor da percepção, mas não sou mentirosa; sou egoísta. A culpa é apenas uma mínima parte do sentimento que me afoga. A maior parte é arrependimento. Durante a correnteza, você havia visto uma ilha, mas eu não quis ouvir. Quando larguei sua mão, você nada mais tinha a fazer do que seguir para lá e encontrar outros companheiros de viagem. Eu segui pelo outro caminho. Encontrei tempestades e redemoinhos antes de me fixar em terra firme, onde a terra era a seca e eu constantemente me sentia afogando.

- Vamos entrar juntos nesse mar?

- Vamos. Dê-me sua mão. A gente está junto nessa.

Eu me lembrava da hesitação no tom de minha resposta. Você, não. Porque você sempre quis estar junto a mim. Eu é que nunca soube o que querer.


Projeto Mais Que Palavras

Tema do Mês: Mas era pra gente tá junto nessa

Indicações:
Pamela Sousa - Gabrielle Roveda - Ana Paula

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