Um lacre que se rompeu

by - outubro 26, 2015

Sobre o tema de redação escolhido pelo MEC: violência contra a mulher. As mulheres sofrem abusos caladas desde antes de Heródoto iniciar o registro da história. A violência a elas aplicada - violência tanto física quanto verbal - mascara-se como dever de orgulho e envaidecimento para que a covardia do sexo dito forte não leve os homens à insanidade. A culpa destrói, mas quando não há culpa, o ser permanece íntegro. A culpa transfere-se ao objeto. O objeto deve agradecer e deve se culpar.E este limbo de palavras transforma a realidade em um mundo nebuloso. E o objeto torna-se o louco.

Não é uma redação para a prova. Não é sequer um grande texto. É apenas uma confissão daquilo pelo que já passei e daquilo que vi conhecidos passarem. E muitos passam. Ainda que em níveis diferentes e ainda que não saibam o que de fato houve, todas as mulheres já se sentiram violadas e violentadas em algum momento da vida. E algo nelas certamente foi rompido.


Ela foi violada. Foi expulsa do paraíso pelo erro de querer pensar por si e obrigada a habitar um mundo semelhante ao inferno. Mas não era o inferno. Então, ela não sabia que os demônios também habitavam aqui. E ela foi violada por palavras e gestos de suposto carinho, toques meigos e gentis como queriam lhe dizer. Ela sentiu os dedos percorrerem seu corpo e abafarem os gritos. Ela gritava. E todos entendiam que era de felicidade. 

Seu lacre foi rompido. Eles criaram uma linha entre a ingenuidade e a maldade. Criaram tatuagens em suas pernas. A dor da marcação afetou-lhe os passos. As lágrimas de emoção afetaram sua visão. E ela fingiu que não viu. Ainda hoje recorda-se da queda como se fosse exterior a ela. Ela não era a personagem. Ela era apenas leitora. Ela viu a cena, indignou-se, mas não era com ela. E assim, não sentiu que as palavras do próximo capítulo fizessem alguma diferença.

Sua mente foi apagada. Ela não sentia os efeitos da droga, embora soubesse que algo estava errado. Ela não sentia nojo. Ela não devia. Os toques eram graças. Ela se perguntava o que havia de diferente nela naquele dia. Mas, como todos glorificavam o fato de chamar a atenção, ela envaideceu-se. "Ela devia se envaidecer" repetiam constantemente. E ela pensou que aquela seria a única forma de afeto que receberia. E quando não recebia, sua mente distorcida achava que havia algo de errado. Diziam-lhe que ela não estava sendo boa o suficiente.

Seus valores foram invertidos. Suas palavras foram caladas na mentira que ela inventara. Ela delirara. E então passou a rir de sua própria desgraça. Não queria viver a tragédia, então passava para a comédia grega, inspirada em Sonhos de Uma Noite de Verão. Ela ria, deixava de lado sua personalidade atuante e deixava-se receber mais carinhos doces como aquele. O sabor amargo da prova derretia como chocolate em seus lábios. E mais dedos por seu corpo eram bons. Era a única forma de toque que conseguiria receber.

Ela foi violada. Romperam o lacre de sua consciência e lhe implantaram ideias distorcidas. Ela tinha 16 anos e acreditava em príncipes encantados. Ela cresceu achando que o conto de fadas não existia e que aquela história seria a mais próxima da felicidade. Até que um dia, novamente, extrapolaram os limites do abuso, e a ficção tornou-se verdade. E as lágrimas vieram. Mas, dessa vez, ela começou a enxergar.

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