Os anos de vinte
Ela chegou aos vinte dançando jazz. Deixava os cabelos curtos acima do ombro e usava franjas mesmo que não lhe caíssem bem. Ela queria apenas entrar na festa e sentir que estava onde devia estar. Queria se encaixar. Ela usava os vestidos abaixo dos joelhos, como a moral mandava. O pó branco para mascarar; ela queria se misturar. Seus sapatos possuíam salto na medida, sem muito barulho fazer. Ela não queria, com seus passos, se intrometer. Ela ria com piadas sem graça sem nem enxergar a falta de graça que havia ali, tomando uma taça de bebida comprada com ouro que lhe estava sendo pago para ser assim.
Até que ela riu e cuspiu vinho durante a lei seca. E ela passou a ouvir rock ao invés de jazz. Queimou seus sutiãs e deixou os seios cair. Ela podia. Ela usou batom e lápis escuros, borrados pelas noites de ressaca e lágrimas a seguir. Ela usou botas de salto e tênis cano alto. Usou tatuagens, marcas da indignação. Seu sorriso tornou-se sarcástico e sua vida uma intromissão. Ela queria fazer discursos e usar palavrões. Até que o cárcere do tempo tentou fazê-la se redimir.
Ela olhou para as décadas com arrependimento, como se fosse errado viver, e, na ausência de algo, ficou impedida de algo fazer. E assim voltou na história e vestiu seu sobretudo, e, inspirada na autora que lia, no rio Cócito, livrou-se de tudo.
Ela olhou para as décadas com arrependimento, como se fosse errado viver, e, na ausência de algo, ficou impedida de algo fazer. E assim voltou na história e vestiu seu sobretudo, e, inspirada na autora que lia, no rio Cócito, livrou-se de tudo.

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