O caderno que fez minha prosa
Pandora gostava de acreditar que havia nascido para um romance. À medida em que o tempo passava, ficava inquieta com a inércia da vida. Nada grandioso ou extraordinário lhe acontecia. Não podia viver para sempre na mesmice do nada acontecer. Assim, quando passou pelo antiquário que ficava a algumas quadras de sua casa - exatamente na metade do caminho para a escola -, veio-lhe o grande pensamento. Não precisava ser presenteada por deuses, fadas madrinhas ou excêntricos seres. Pandora podia fazer da sua vontade a verdade. Comprou aquele lindo e caro caderno de capa dourada - da mesma cor que seria sua vida de agora em diante. O proprietário da loja lhe contara as fabulosas aventuras vivenciadas por aquele item - havia passado até pelas mãos de Shakespeare -, cuja capa sobrevivera por séculos. As folhas, como era de se esperar, ficaram desgastadas com a idade e foram usadas e trocadas algumas vezes. Algumas pertenciam hoje a museus, outras escondiam-se sob o solo do tempo. Nem sempre o conteúdo era importante o suficiente para ser relembrado - ou, ao menos, de importância para o mundo. O que importava era a mágica daquele revestimento de ouro e partículas preciosas - as vidas que se escondiam no objeto. A mágica? Tudo o que você deseja se torna real. Pandora finalmente teria o que queria. Pandora pensou na lista de desejos que gostaria de registrar. Em primeiro lugar, gostaria de ser rica o suficiente para comprar e viver tudo o que desejasse caso não pudesse escrever no caderno. Colocou uma boa soma no caderno e esperou que o dinheiro entrasse em sua conta. Depois, pensou, gostaria de ser mais alta. E continuou com a parte de futilidades. Afinal, nada de mal poderia advir destes pequenos desejos. Passou, então, para parte sentimental. O que gostaria de escrever? Pandora sabia bem. "Pandora deseja ser a heroína de um romance e encontrar um final feliz ao lado de alguém que a compreenda". Magicamente, Pandora foi absorvida por seu desejo e transformada em palavras. Tornou-se uma história, com um desfecho feliz ao lado de um príncipe que a compreendia. Não percebeu que passar o controle de sua vida a algo ou alguém era perder-se no curso do livro da vida. O seu romance seria aquilo que sempre desejou: apenas palavras.
O tema do mês para o Projeto mais que Palavras era: e se você tivesse um caderno que tudo que você escrevesse nele se tornasse realidade? Eu poderia ter escolhido falar sobre todos os desejos da minha vida, mas a verdade é que não sei se aceitaria um item deste gênero, ainda que fosse possível. A ilusão de que tudo o que desejamos é bom e saudável pode nos levar à ruína. Há coisas que não acontecem simplesmente porque não estamos preparados para elas ou porque não nos esforçamos o suficiente. Tudo o que é conseguido facilmente vem com um preço: o controle de sua própria vida. A partir do momento que nos entregamos a "mágicas", tornamo-nos reféns delas. Nós não controlamos o que nos controla. Assim, quando aceitamos qualquer tipo de corrupção - até mesmo passar a perna na vida - estamos sujeitos aos interesses da própria corrupção e não mais aos nossos. Além disso, nossa lista de desejos não é infinita, o que nos torna cada vez mais fúteis. Desejos são a fonte de nossa força. Agimos porque desejamos agir. Eu caminho cem passos, porque desejo caminhar. Mesmo quando obrigada, eu desejo, pois minha obrigação terá um propósito e um retorno. Desejar cada vez mais futilidades é, portanto, tornar-se fútil e vazio.
Peguemos cadernos de ouro, miraculosas promessas vazias, e escrevamos as metas de uma vida. Não coloquemos, porém, nesses simples objetos o controle de nossos passos. Utilizemos-os como rotas, mapas que nos levem aonde queremos, sem dar a eles a força para caminhar. Utilizemos nossos pés e mãos para construir o caminho concreto, sempre conscientes de que cada escolha fará nossa própria história. Como gosto de dizer e como ouço vários dizendo: sejamos nossos próprios deuses criados e escritores de nosso próprio romance, sem que, contudo, tornemo-nos prisioneiros de uma história limitada. Ainda que, como diz Ian McEwan, não exista reparação para os deuses e novelistas, não existe vida para quem deseja ser apenas palavras.
Este foi mais um texto do Projeto Mais que Palavras, criado com o propósito de incentivar a escrita através de temas e roteiros mensais. para conhecê-lo basta clicar aqui.
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