Projeto Mais Que Palavras: Tempo Para Si
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| Fonte: Pinterest |
Em um acesso de loucura, decido quebrar o relógio em meu pulso contra a parede de concreto de meu quarto. A objetificação do tempo transformada em cacos, cada qual representando sua partícula minúscula do espaço que me é roubado. E como ação consequente, tento abrir a porta emperrada do aposento, mas ela não obedece ao meu comando.
As paredes vão se fechando, como eu eu estivesse em um campo de extermínio. Não sei quantos minutos demorarão para me esmagar umas contra as outras; quebrei o instrumento de cálculo. O ar começa a ficar comprimido. E, ainda que sua concentração esteja aumentando em virtude da diminuição do espaço, ele parece desaparecer. Ele se concentra sobre minha cabeça, como uma espada que ameaça cair. O nariz pede para que ele desça, mas, da mesma forma que a porta, ele não consegue me obedecer.
Eu perco o domínio sobre minha sanidade, da mesma forma que perdi o controle sobre minha morada. Meu corpo entra em espasmos, pedindo uma liberdade que nunca lhe concedi. Não sei se o movimento tem a intenção de me destruir rapidamente para não sofrer com as paredes que me sufocam, ou se é apenas uma última vã tentativa de romper a construção que me envolta e que se virou contra mim.
Minha construção. Eu mesma ergui estas paredes que agora se aproximam. Eu levantei-as do modo que me foi instruído, ou, pelo menos, do modo que a informação chegou em mim. E, agora a obra se libertava, colocando fim à sua criadora. Eu não poderia alegar que não previra trágico destino. Eu sabia. Eu tinha o relógio. Ele me indicara o tempo gasto em um mundo que se destruiria por ausência de uma base.
Eu tudo dera ao mundo, enquanto nada dera a mim. Eu me perdia em promessas feitas a um corpo distante, um corpo que costumava chamar de eu. Até que me prendi às promessas e esqueci daquele a quem prometia. Esqueci de mim.
Nos últimos instantes de vida, você não sabe para onde olhar. Você pode olhar para uma pessoa amada, para uma obra de arte, para o seu próprio umbigo. No momento em que meu tronco estava comprimido por paredes opostas que logo se tornariam única, eu olhei para meu pulso. Lá jazia um relógio de ouro, reluzente, com aquilo que mais me faltara em vida: um tempo para mim.

3 comentários
O seu é sempre o primeiro que eu vejo, e eu nunca me decepciono!
ResponderExcluirUm beijo!
Obrigada! Também adoro os seus textos!
ExcluirBelo texto, reflexivo e profundo. Adorei! bjsss www.janelasingular.com.br
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