Um Não Ser Que Já Sendo
Enquanto choro de bruços na cama, repito mentalmente para mim: "Eu juro que tentei, eu juro que tentei!". Foi a mesma coisa que eu disse ao espelho pouco antes de transformá-lo em pedaços, em tantos quanto virou meu inútil cérebro. Eu, estripadora. Cortei a massa encefálica em pequenos pedaços de carne humana, mas esqueci de me tornar canibal e ingeri-las aos poucos, de forma a absorvê-las novamente em meu corpo. A ferramenta foram os cacos espalhados pelo chão de vidro espalhados pelo chão do quarto.
Tentar nunca era o suficiente. Há pessoas que nascem para conseguir e aquelas que nascem para desistir. Eu era uma perdedora. Ganharia de quem? De minha pobre alma já perdida e corrompida? Não. Eu não ganharia nem de mim. Porque não existia mais de um eu. Eu era todas as que se espalhavam como peças de um grande quebra-cabeça. Eu era minha incompreensão e meu próprio entendimento. Ah! Eu gritei de raiva. Como podia ser tantas partes quebradas de um mesmo corpo?
Eu estava cansada de ser a personagem escrita e a autora. Peguei o grimório dos lamentos e rasguei as folhas. Eu não me destruiria sozinha. Eu destruiria a mim e aos outros "mins" que poderia existir. Eu não deixaria que meu reflexo ou minhas palavras poluíssem o mundo. Eu iria desaparecer completamente, sem deixar vestígios. Eu não era o reflexo, tampouco as palavras. Eu era algo mais, ou, ao menos, deveria ser. Era o que me diziam, era o que eu pensava, era o que escrevia. EU devia ser algo mais. Eu era algo mais. Algo mais do que nada. Certamente mais do que nada eu era, pois eu chegara a existir ainda que de forma equivocada. Eu ser mais do que eu era, então. E o nada era mais do que essa mediocridade infantil.
Os olhos vítreos focaram o longe, como se enxergassem a concretização da inexistência. Eu podia enfrentar os filósofos e ser nada ainda que sendo. Eu podia apagar-me da vida, da mesma forma que fazia com os rabiscos no diário. Eu não seria mais o que vi, não seria mais a mulher idealizada de meu livro, nem seria o drama que eu era. Eu seria um não ser.
2 comentários
Que lindeza de texto, simplesmente AMEI!
ResponderExcluirPlease, continue escrevendo!
Preciso te add no meu blogroll *-*
Parabéns!
Muito obrigada! Continuarei escrevendo sim (é a única forma de manter minha sanidade hahaha). E obrigada por adicionar ao blogroll também. Espero que você goste dos próximos textos :)
Excluir