Pinocchio

by - julho 06, 2016



Ora, imaginem qual foi sua surpresa e encantamento quando, desperto, percebeu que não era mais um boneco de madeira, mas que em vez disso havia se tornado um menino como os outros. Deu uma olhada em torno e, em lugar das antigas paredes de palha da cabana, viu um belo quartinho mobiliado e decorado com uma simplicidade quase elegante. Saltando logo da cama, encontrou ali separados uma bela roupinha, um chapeuzinho novo e um par de botinhas de couro que faziam delas uma verdadeira pintura

Tudo o que Pinocchio queria era ser um menino de verdade. Mas o que acontece quando se é verdadeiro? Não, não, pergunta errada. O que é ser verdadeiro? Pinocchio cresceu na mentira e aprendeu que a verdade era o único modo de alcançar a felicidade. Todavia, antes que pudesse se tornar aquele que deveria ser, passou por provações e testes. Testou sua própria essência em inúmeros desafios impostos pela vida até que aprendesse quem realmente era e como deveria agir diante de um vasto mundo. Ainda assim, descobriu o que era a verdade?
[Continuar]

Contar aos outros o que houve é sinceridade. Talvez, porém, a verdade esteja em palavras que não são ditas. Elas não estão nas mentiras, mas estão ocultadas nas falas que não querem sair, nos movimentos trancados da língua. Dizer ao mundo o que se quer ouvir não significo ouvir o que se sente - ou mesmo sentir. Ninguém contou a Pinocchio que seu coração talvez não batesse ou que, se batesse, podia não ser escutado. Ninguém revelou que a madeira de sua origem talvez permanecesse presa ao seu corpo constituindo uma barreira para a vida. Pinocchio talvez nunca fosse capaz de sentir o mesmo que diziam dever sentir.  

Embora se aproximasse da imagem perfeita, talvez fosse tarde demais para que aprendesse a ser completamente sincero. Talvez jamais conseguisse se entregar como deveria. Quem sabe Pinocchio continuasse sendo uma marionete dos sentimentos que pensava dever possuir. 

Ter um coração pulsante, uma pele, dois olhos vivos não implicam na capacidade de sentir-se completamente humano. Talvez houvesse mais humanidade, no sentido de sentimentalidade, em bonecos de madeira que em pessoas caminhantes. E na verdade, não há regra que diga que um coração existente é um coração que sente, porque, às vezes, é impossível ser tudo o que se quer. Você pode se tornar um menino de verdade, mas não necessariamente sentirá de verdade. Talvez todas as sensações que manifeste sejam obra do teatro que você nasceu para encenar.

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