Tesouro Submerso

by - março 28, 2016



"Ela olha para o mar e lembra tudo o que deixou as ondas levarem. Deixou que elas levassem sua sanidade, seus medos, mas quase entregou sua vida também. Enquanto abraça os joelhos, ela lembra daquela noite, como se ainda estivesse nela. Ela lembra de estar drogada e bêbada, lembra de estar no mar, lembra de querer estar em outro lugar, lembra de querer estar em outra vida. E ela se lembra de estar na areia, chorando, abraçando os joelhos do mesmo modo que estava agora, e de prometer a si que nunca mais se deixaria fazer algo assim."

Você olha para o álbum de sua vida e vê as fotos alegres das quais quis se recordar. Jogou fora todas aquelas tentativas frustradas em que saiu com cara de choro, ou fazendo uma careta sem intenção, ou com um sorriso torto, ou de olhos fechados. Você não quer enxergar todos os dramas e dificuldades pelos quais passou e muitos do quais por que ainda passa. Mas você sabe que, no fundo da gaveta, vai ter uma foto que representa a realidade da vida: a tristeza andando ao lado da alegria. E ao tomá-la em suas mãos, você se lembra do que quis esconder. Você se lembra da rota tortuosa que percorreu antes de sorrir para a câmera. Você se lembra dos caminhos solitários. Você sabe que foi a mar profundo tentar salvar um navio parcialmente afundado.   [Continuar]

Você caiu em águas profundas. A sensação de vazio crescia a cada dia, mesmo que o peso de toda a água lhe pressionasse e mesmo que água começasse a entrar em seus pulmões. Você percebeu, mas quando a dor é forte o corpo se anestesia. Você encontrou sereias, os vícios do mar. Ficou inebriada. Deixou-se levar pelas cantigas. A dor quase parou. Os míticos seres entoavam cantigas de ninar. E, assim, você dormia em paz. Os pesadelos - memórias dos seus dias - afastavam-se. Não havia vestígios aparentes de todo o veneno em seu corpo. E quanto mais fundo você ia, mais a escura água mascarava a presença das substâncias.

A foto em suas mãos traz a imagem da praia e de tudo o que ela foi para você. Você se lembra de ir cada vez mais longe no negro oceano desconhecido. Lembra de pessoas em terra firme chamando seu nome. Na foto feliz, você pula pra parte em que regressa. Mas tem a foto triste, que a revela em cores contrastantes que fazem doer a vista. Você tem lágrimas nos olhos, mas está tão molhada que nem sente a diferença. Está hipnotizada pelo canto das sereias. E há ainda uma foto mais triste. Há aquela em que sua consciência foi aniquilada por todo o peso do mar e em que você paira inerte no fundo do oceano.

As sereias lhe puxavam para baixo, querendo fechar-lhe em um profundo sono: o sono dos eternos náufragos. No entanto, um feixe de luz ainda pairava no céu noturno. A noite ainda não era breu. E os seus olhos se abriram. Você aprendeu a nadar. Nadou com o que ainda lhe restava de força. Rastejou pela areia da praia, e deixou-se ficar por horas a nada ver e nada pensar. Deixou-se aglomerar as células que foram partidas. Deixou-se pescar um  resto de algo que nem sabia existir.

Então, você pensou em tudo. Pensou em como afundou, em como se afogou e em como ascendeu. Você prometeu a si que nunca mais seguiria as ilusões da fantasia, ou sereias, ou navios naufragados, nem beberia venenos, pois, embora lindo, o fundo do mar sempre seria isto: fundo. E na profundidade dele não havia o tipo de vida que você podia viver. Escondeu as fotos que registravam o acontecimento em um lugar a que somente você tinha acesso, mas não as destruiu. E tentou ser positiva: às vezes é preciso chegar ao fundo e se afogar, perder-se num oceano escuro, para encontrar a navegadora que você precisa ser.

***

"Às vezes, a gente precisa fazer coisas ruins pra ter resultados bons." Esta era a frase em que deveria me basear para este tema. Porém, toda vez que eu a olhava, algo me bloqueava. Uma venda era colocada sobre meus olhos, e minha mente fugia do assunto. Pensei em tantas maneira de retratar o que esta frase significava em minha mente, que todas fugiam com medo do que deveria ser. Havia algo que queria transbordar e que espantava toda as ideias talvez menos dolorosas de serem descritas. E transbordou. Virou texto. Um texto com mesmo sentido de que experiências não ortodoxas são necessárias, às vezes, para o avanço da ciência. Um texto que fala que fazer coisas ruins na vida, às vezes, é o único meio de encontrar as coisas boas dela. Um texto que fala que, mesmo assim, existe um limite tênue entre fazer coisas ruins e se destruir. 

Por fim, talvez  o pensamento deste texto seja clichê, mas o que importa sempre é de mais árdua reprodução e nunca parece suficiente.



"Às vezes, a gente precisa fazer coisas ruins pra ter resultados bons" foi o tema deste mês do Projeto Mais Que Palavras.

Indicações: Nilzete Moura | Ellem Barboza

You May Also Like

0 comentários