A puta recatada
Eu sou um pouco de cada. Sou fútil, sou recatada, mas de vez em quando sou assanhada. Nem ouso dizer que sou puta apenas na cama. Sou puta quando bem me convém ser. De dia, de noite, aos olhos de outros, diante do espelho. Mas às vezes me canso e decido não aparecer. Fico em casa lendo fantasias. Ou fico em casa fazendo as fantasias acontecerem. Vou de um extremo ao outro sem nem perceber. Da mesma forma, passo batom vermelho em dias de sol, para que brilhem como eu desejar. Ou me apago em nudes, que mais nada são do que reflexos de meu volátil humor. E que dor. Que dor que pensem que um ou outro signifiquem mais em meus dias do que realmente significam. Que dor que queiram definir minha beleza. Que dor que queiram separar-me das partes antagônicas intrínsecas a mim, pois não sou uma sem outra. Não compreendo a calada reclusa, sem a falante baladeira. Da mesma forma, desconheço a reclusa mulher de boca aberta que tantas vezes preenche o lar por inteiro, se desconheço aquele silêncio da mulher que absorve o mundo, ou que o preenche, ou que o experimenta. Que triste dor saber que tenho que dividir-me, para que a paz alheia seja encontrada. Que triste fim este meu: um inferno trancado em recatados lares que não desejo habitar.

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